O ballet, geralmente, é visto somente como uma atividade física, quando, na realidade, o ballet é uma disciplina que requer trabalho tanto do corpo, como da mente. Por este motivo, como exercitamos o nosso corpo, treinando diariamente para sermos cada vez melhores nesta disciplina, também devemos fazê-lo com a mente, a qual é o centro de comando de tudo o que os nossos membros realizam.

Como Professora de ballet, há algo que me preocupa nos meus alunos, uma prática que vem aumentando nos últimos anos: a falta de interesse noutros aspetos culturais, como a leitura, e não me refiro apenas a ler textos escolares ou publicações que falem de ballet, mas à leitura como passatempo. Embora aprecie a sua dedicação à dança e o seu interesse em melhorar a sua técnica, normalmente, tanto os alunos, como os seus pais, esquecem-se que o conhecimento do mundo, e a relação que mantemos com este, têm um papel fundamental na formação de todo o artista, sendo a leitura um excelente vinculo entre a pessoa e o mundo que o rodeia.

É normal que quando uma bailarino se está a formar nos foquemos, em particular, na sua técnica e no treino do corpo, mediante os altos níveis competitivos que existem hoje em dia no mundo do ballet. Porém, não nos devemos esquecer que um bailarino não só executa passos de forma correta ou, por vezes, até maravilhosa, também é um artista, um veículo para expressar situações, sentimentos, histórias, e quanto mais conhecimento geral do mundo possua, mais fácil será compreendê-lo e interpretá-lo com o seu corpo.

“Ler expande a perceção de uma pessoa para outras experiências da vida que o leitor não experimentou, especialmente ao ler assuntos que não estão relacionados com o seu estilo de vida”, explica o Dr. Wade Fish, diretor da Northcentral University nos EUA.

Não são poucas as obras de ballet, que formam parte do repertório de quase todas as companhias do mundo, provenientes da literatura (“Sonho de uma noite de verão”, “Oneguin”, “Romeu e Julieta”, etc), figuras mitológicas ou histórias de tradições populares. Se o aluno tem, pelo menos, um conhecimento geral de quem são estes seres, no que toca a personifica-los, ser-lhe-á mais fácil entendê-los e, assim, dar a sua própria interpretação.

Mesmo além da interpretação de um certo papel, ler um livro ajuda às mentes mais jovens a processar difíceis lições de vida que podem enfrentar em ambientes de alta competitividade, de que fazem parte desde muito cedo e algumas vezes sem terem a maturidade necessária. A amizade, o compromisso, o enfrentar o fracasso e a luta por um objetivo, são assuntos, que de uma forma ou de outra, encontramos representados frequentemente na temática de livros para os mais jovens, quer sejam de ficção ou não, históricos, contemporâneos ou de fantasia.

Por outro lado, estudos recentes têm demonstrado que ler frequentemente, quer sejam romances, banda desenha ou mesmo uma revista, ajuda a melhorar a memória e o vocabulário, além de reforçar o pensamento analítico. A memória é fundamental para um bailarino que deve aprender diversas coreografias, muita vezes num curto espaço de tempo, assim como os exercícios diários do seu treino. Aprender algo rápido pode dar a um bailarino uma vantagem competitiva que necessita numa audição ou numa aula para uma bolsa ou programa de verão e a leitura ajuda-o de uma forma que o seu professor nunca conseguirá.

Quanto ao vocabulário, podem pensar que como um bailarino “não fala”, esse pormenor não é importante… Porém, o bailarino recebe correções, as indicações para o seu treino são dadas com palavras, quanto mais vocabulário possua, mais fácil será de entender a instrução que recebe. Se, além disso, o seu pensamento analítico foi reforçado com o hábito da leitura, terá a capacidade de aproveitar mais cada fase do seu treino, aplicando correções à sua própria execução, assumir o porquê de certos resultados em competições (e não dececionar-se), ou a rapidez ou a lentidão do seu avanço em certas fases do seu treino.

A minha experiência com alunos com um bom hábito de leitura tem-me mostrado que têm uma alta capacidade de concentração, mesmo em ambientes menos adequados para eles, e essa é uma ferramente valiosíssima quando a muito jovem idade deve confrontar-se a solo com os palcos. Os que vejo a ler numa esquina de camarim, alheios a qualquer drama ou situação de stress tão frequente antes de subir ao palco, vai melhorar o seu desempenho.

Se todas as razões parecem poucas, um estudo de 2009 da Universidade de Sussex, provou que a leitura pode reduzir o stress até 68% e é mais efetiva como técnica de relaxamento do que escutar música ou tomar uma chávena de café. Quando os nossos jovens se confrontam com ambientes altamente competitivos, não podemos pedir melhor distração para eles.

Artigo de Patrícia Fiorucci

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