Os bailarinos são apaixonados pelo que fazem e, definitivamente, essa paixão é o caminho para o êxito. Por isso, é muito difícil encontrar um aluno comprometido com a dança que admita que está cansado, ou mesmo, nos mais jovens, que sejam capazes de identificar os primeiros sintomas de que os seus músculos e articulações precisam de uma pausa.

É tarefa do professor identificar estes momentos de cansaço e dizer ao aluno que deve parar, é sua responsabilidade o bem estar físico e mental do jovem, bem como da sua vida futura. A estrutura óssea das crianças em crescimento não se desenvolve de forma ótima num corpo cansado. Em poucas palavras, uma criança que não permita o descanso aos seus ossos e músculos, não crescerá, e o seu professor deve estar atento a isso.

Portanto, o descanso é fundamental deste ponto de vista. O descanso inclui uma parte importante e integral do treino, pois a maior aprendizagem ocorre quando não se está cansado, já que é nesses momentos que os músculos estão preparados para enfrentar novos desafios e a mente pode pensar com clareza de forma a executá-los.

É por isso, de maior importância que, assim como se prepara a agenda de treino para alcançar um objetivo, o professor e o aluno desenvolvam estratégias para o descanso, físico e mental, tanto na rotina diária como na rotina de longo prazo.

A primeira coisa que um aluno deve aprender é que deve tratar os seus tempos de descanso com o mesmo respeito e paixão como trata os seus tempos de treino. O aluno nunca deve pensar que um dia sem treinar é um dia perdido, porque descansar é um fator determinante na hora de melhorar.

No decorrer da sua agenda semanal, o aluno deve contar com momentos de “descanso completo”, ou seja, um ou dois dias livres por semana, longe de qualquer atividade física, já que quando de treina com intensidade, surgem pequenas ruturas na fibra muscular. São estas ruturas que permitem o crescimento dos músculos e que tornam os alunos mais fortes. Também ocorrem desgastes nas articulações. O corpo tem capacidade de “auto-reparar” estas pequenas lesões sempre e quando se tem tempo de descanso adequado.

Descansar quando se está cansado, é mais produto de um treino intenso para uma competição ou um espetáculo, do que a estratégia principal para evitar lesões. Muitas vezes, parar uns dias pode parecer excessivo para um jovem que só se sente feliz a dançar, mas deve ter em conta que o tempo longe do treino poderá ser maior se surgir uma lesão.

Por isso, recomendo sempre que os alunos tenham outros interesses ou hobbies, para além de dançar. Isso permite-lhes descansar, também desligarem-se mentalmente, e não verem o seu descanso como um retrocesso, além dos dias de “descanso completo”, quando se treina mais de três horas consecutivas por dia, o professor deve encarregar-se que o aluno tenha o que se conhece como “descanso ativo” durante o dia e que o aproveite. Estes momentos são as pausas entre uma aula e outra ou os minutos de espera entre o ensaio da sua variação e a de outro estudante. Se o professor vê o aluno nestes momentos a praticar algum movimento uma e outra vez, esforçando-se quando termina de ensaiar ou treinar, pode aconselhá-lo que ocupe algum tempo a hidratar-se ou a alinhar a coluna, deitando-se no solo e fechando os olhos, para um maior relaxamento. Esses minutos sem atividade física permitem ao corpo recarregar-se de energia.

Incluindo quando se tratam de ensaios privados, que ocorrem logo depois de outra hora de treino intenso, o professor pode fazer uso de outras estratégias para incentivar este “descanso ativo”. Pode, por exemplo, ensaiar várias vezes uma variação com muitos saltos e de seguida dedicar-se a outra que tenha outro tipo de movimentos, para equilibrar, assim, o impacto físico, permitindo que a parte esgotada do corpo possa descansar, embora o restante se mantenha ativo. Também pode permitir “marcar” alguns movimentos que já tenham dominados, não forçando a repeti-los, quando não é provável que a repetição leve a uma melhoria.
Quando um professor é responsável pela quantidade de treino de um aluno, quando se preocupa com ele e o conhece o suficiente para identificar os primeiros sintomas de cansaço, o ideal é que defina uma rotina diária especial em que a intensidade aumente gradualmente ao longo do dia e alterne períodos de trabalho intenso com momentos de descanso.

Lembrem-se sempre que a qualidade do treino é mais importante que a quantidade de hora dedicadas a ele. Se o professor pede para que o aluno descanse, se o corpo do aluno não responde como deveria fazê-lo, é o momento de prestar atenção.

Artigo de Patricia Fiorucci

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