Depois do desenvolvimento que as danças de corte tiveram a partir dos séculoso VXII e VXIII, com um fulgor estético e consequente desenvolvimento das técnicas das danças de corte – que pouco a pouco evoluiam para um formato de espectáculo autonomo e profissional – essas novas danças/tecnicas/estéticas passaram a ser utilizadas com cada vez mais peso e presença, tanto nas dezenas de óperas que estreavam todos os anos, como enquanto forma de arte autónoma com espectáculos e recitais independentes de ballet.

Mas foi sobretudo durante o século XIX que o ballet clássico assumiu o seu espaço enquanto forma de expressão artística independente, com criações muito bem produzidas. Foi igualmente durante todo o século XIX que as diferentes estéticas dentro da dança clássica se começaram a agregar em torno de diferentes estilos o que foi criando diversas necessidades técnicas e físicas para os corpos dos bailarinos, iniciando-se assim a criação das várias escolas que representavam as diversas estéticas vigentes. Falamos por exemplo da escola francesa, a escola italiana e mais tarde a escola inglesa e dinamarquesa.

Devido a um – inesperado – estreitamento das relações políticas entre a França e a Rússia, em finais do século XIX, houve igualmente uma conjugação de ideias artísticas e estéticas que tiveram como consequência inúmeras trocas e partilhas culturais entre estes dois países.

Em 1888, a França numa tentativa de modernizar o seu antigo império, contraiu um enorme empréstimo financeiro perante a Rússia. Mas foi sobretudo o acordo de cooperação militar assinado entre a Rússia e a França em 1892 que selou uma aliança duradoura entre os dois países, pelo menos até ao início da revolução bolchevista em 1917 que levou à queda de todo o regime político russo e aos Czares.

Mas antes dessa data, as visitas oficiais entre os governantes dos dois países tinham aumentado, tendo mesmo o czar Nicolas II participado em eventos de estado franceses de enorme importância, em 1896, 1901 e 1909.

Esta reaproximação diplomática deu origem a sumptuosas celebrações que colocaram a Rússia na moda, não só em França como em quase toda a Europa. O público ocidental descobre com fascínio todo um continente que tinha, até essa data, permanecido como um território distante, exótico que fazia a ligação entre extremo norte da Europa e o leste, muito desconhecido.

Programa oficial da temporada russa na opera da Paris 1910

A importância da música russa em França, antes dos Ballets Russes.

NicolasII imperador da Russia em visita a França

A grande exposição universal em Paris, França e os concertos de música aí tocados tornaram o repertório musical russo conhecido do público europeu. Compositores tão importantes como; Tchaikovsky que começou a ser conhecido em França entre 1870 e 1880 e Rimsky-Korsakov que também realizou concertos em Paris desde finais do século XIX, apresentaram trabalhos do intitulado grupo dos Cinco.

Essa nova música e sua sonoridade agrada sobremaneira ao público ocidental e a sua linguagem e melodias trazem perfumes e imagens de outros lugares, influenciando o público mas também os compositores ocidentais que são inspirados por ela. Obras como as Danças Polovtsianas do Príncipe Igor de Borodin e Scheherazade de Rimski-Korsakov eram conhecidas do público muito antes da chegada dos Ballets Russes a França e posteriormente aos Estados Unidos da América.

Os Ballets Russes

O verdadeiro fundador da companhia dos Ballets Russes foi o empresário Serge Diaghilev (1872-1929).

Serge Diaghilev, aproveitando o momento profícuo em que se encontravam as relações económicas, políticas, mas também culturais entre os dois países, organiza várias digressões na Europa todos os anos, entre 1909 até ao ano da sua morte, em 1929.

Com uma visão artística muito cuidada e um sentido de oportunidade fantástico, Diaghilev escolhe cuidadosamente as obras musicais que deseja mostrar ao público. Público europeu que ele conhece bem e sabe do seu desejo de exotismo. É com esta visão e perspicácia do que o público quer, deseja e gosta que consegue garantir o sucesso comercial de seus empreendimentos artísticos e os seus negócios.

Em 1906 Diaghilev organiza uma exposição retrospectiva de arte russa no Grand Palais, depois do sucesso desta primeira exposição, organiza uma outra em 1907 no Palais Garnier com cinco grandes concertos de música russa que se tornaram um marco para o restante sucesso do seu empreendimento. Em 1908, apresenta ao público a ópera Boris Godunov, de Mussorgsky. Este concerto antecede a primeira apresentação, no ano seguinte, dos Ballets Russes com música russa.

Foi em 1909 no teatro de Châtelet que a companhia de artistas que ele criou sob o nome de Ballets Russes se apresentou pela primeira vez, com imenso sucesso, antes de viajar pela Europa e pelo continente americano, digressões que mantiveram uma regularidade anual entre 1909 e 1929.

Serge Diaghilev

A reunião das diversas Artes

Diaghilev consegue o feito artístico e histórico de reunir os maiores talentos para a sua companhia, uma equipe de talentosos artistas russos, tanto para a coreografia (como os bailarinos Mikhail Fokine e Vaclav Nijinski) quanto para os cenários e figurinos (como os pintores e decoradores Léon Bakst e Alexandre Benois). A equipe do Ballets Russes cria, assim, uma verdadeira obra-prima da arte total para cada performance, fundindo dança, música, cenografia, moda e decoração: “Quando produzo um ballet, nunca perco de vista um único momento de todos esses fatores”(Serge Diaghilev).

Mikhail Fokine em Shéhérazade de Rimski-Korsakov

A evolução dos Ballets Russes

As obras geralmente as mais apreciadas pelo público são aquelas que têm um caráter distintamente “oriental” ou “russo”. As Danças Polovtsianas de Borodine, L’Oiseau de feu de Stravinski e Shéhérazade de Rimski-Korsakov estão entre as obras mais aplaudidas pelo público francês e, portanto, as mais representadas pela companhia dos Ballets Russes.

Todas estas obras são ainda hoje reencenadas e recriadas para o público que continua a esgotar salas e a não se cansar de ver e ouvir o trabalho dos Ballets Russes.

Por outro lado todas estas obras servem de inspiração e são inúmeras vezes bases de novas recriações de coreógrafos contemporâneos que criam novas peças com linguagens e estéticas mais actuais, mas sem nunca colocarem de lado, ou para segundo plano, a essência criativa, estética e artística que Serge Diaghilev e os artistas com quem este trabalhava.

Foi para o público parisiense, dos finais do século XIX, início do século XX – um público menos conservador e aberto a todo o tipo de vanguardismos que emergiam nessa época – que Diaghilev reservou as maiores audácias. Só depois de ter assegurado o sucesso das obras que produziu e dos artistas que representava, avançou para digressões no resto da Europa e deu a conhecer certas obras de Stravinsky, em Londres ou Berlim. “A Sagração da Primavera”, trabalho emblemático dos Ballets Russes, composto por Stravinsky para Diaghilev, só estreou em 1913, no então novíssimo teatro dos Champs-Élysées. Esta peça continua como farol da modernidade no início do século XX. Após uma primeira série de apresentações de música russa, Diaghilev rapidamente decide pedir a artistas não russos que também eles contribuam para o movimento estético que ele e os seus artistas representavam. Atento a todas as inovações estéticas do início do século e à modernidade que os movimentos artísticos da época representavam, convidou muitos compositores de seu tempo, como Satie (Parade, 1917; Jack in the Box, 1926), Ravel (Daphnis e Chloé, 1912), Debussy Prélude à l’après-midi d’un faune, 1912; Games, 1913), Poulenc (Les Biches, 1924), tendo ainda feito convites a vários pintores como Picasso, Matisse, Chirico, Miro…

Os Ballets Russes marcaram de forma indelével a música, a dança e a estética em geral, na forma como se criava, apresentava e consumia Arte, na Europa e consequentemente no resto da civilização ocidental.

Por Vasco Macide

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here