O circuito de competições de ballet cresce todos os dias e, como sempre, existem opiniões opostas sobre se a participação nesses cenários é benéfica para os alunos ou, pelo contrário, pode agir contra eles.

João Pedro Freitas – Flames of Paris – CIB Porto

A participação no circuito de competição permite ao aluno estabelecer objetivos relacionados com a sua própria técnica. O aluno possui um período de tempo definido para melhorar certos aspetos de seu desempenho e trabalha com mais intensidade, mais focado num objetivo específico. Além disso, permite-lhe estar em palco, com muita pressão, várias vezes ao ano, o que faz maravilhas com sua performance artística e gestão de stress; amplia seu conhecimento e execução do repertório clássico tradicional e aumenta sua linguagem corporal ao interpretar peças modernas, em alguns casos criadas especialmente para ele, para trabalhar mais nos seus fracassos e aprimorar as suas habilidades.

Essas são as vantagens, sem mencionar que sua presença constante no circuito de competição permite que ele se torne conhecido, o que não é pouco para uma carreira futura num mundo tão competitivo como o ballet profissional, e obtenha bolsas de estudo que lhe permitirão trabalhar com outros professores, em outro ambiente e com outro sistema.

Isso tudo são vantagens e não são poucas.

O problema surge quando a participação no circuito de competição é tomada pelo aluno e por um professor com excesso de competitividade em relação a outros participantes e não a si próprio, onde deve ser focado; quando o prémio obtido é a única coisa em que estamos interessados ​​e não no desempenho geral e nos objetivos alcançados.

O circuito de competências deve ser utilizado pelo aluno para competir com ele mesmo de um palco para outro; melhorar o que falhou da última vez e encontrar novas dificuldades, melhorar-se a si próprio e não apenas comparar-se com os outros.

Ver as competências como uma comparação com outras pessoas pode levar à desmotivação dos alunos porque, antes de tudo, embora os jurados tenham regras para avaliar, o ballet é uma arte e seu processo de avaliação subjetiva depende dos gostos pessoais de quem faz a avaliação. Sim, há formas académicas corretas e incorretas de executar um movimento, mas o ballet não é apenas uma sequência de movimentos a serem executados por padrão, não é uma rotina de ginástica, o ballet lida com um conjunto de elementos que requer apreciação pessoal. Um júri pode-se concentrar mais na execução, outro no aspeto artístico; pode-se ter um gosto estabelecido por algum tipo de figura ou movimento em cima do palco, até sua própria opinião sobre a versão coreográfica usada ou as roupas, e tudo é válido.

Além do mais, os alunos de ballet são jovens em processo de treino, não máquinas que executam exatamente o mesmo programa todas as vezes. Fatores pessoais afetam o tempo que você dança, como você descansou na noite anterior e até o que tomou ao pequeno almoço pode influenciar o desempenho de um aluno de ballet que ainda está no processo de aprender a lidar com esses problemas. Assim, artistas que se expressam com o corpo, mesmo os mais experientes, podem ter um dia mau.

Portanto, como professora que dedica boa parte do ano a treinar alunos que participam do circuito de competições, tento incutir nos meus alunos que a participação em qualquer competição lhes permitirá melhorar sua técnica, porque eles trabalharão mais focados em certos detalhes e terão um prazo defina para atingir certos objetivos com seu corpo; Mas concentrar-se apenas no resultado da competição, nas medalhas, na posição na classificação geral, nas malas, pode levar a focar o trabalho de uma maneira errada quando é feito com uma visão do futuro.

João Pedro Freitas – Ensaio de Don Quixote

Lembrem-se de que um bailarino, na sua vida profissional, não será contratado para realizar variações num cenário vazio. O trabalho em sala de aula, o desempenho do grupo, a ética e o comprometimento do trabalho serão levados em consideração. Ganhar medalhas é satisfatório, obter bolsas de estudo é proveitoso, mas é apenas um grão de areia no acumular de experiências que um aluno de ballet deve acumular.

A visão deve sempre estar no objetivo: “como posso melhorar minha técnica” e nunca “como posso ser melhor que outra”?

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