Ultimamente, tornou-se muito comum que as escolas de ballet ofereçam professores diferentes para ensinar um grupo de alunos, sob a premissa de que o aluno beneficiará de diferentes estilos de ensino. À segunda-feira, eles receberão aula de ballet de um deles, na terça-feira com um outro professor, e o esquema repete-se variando até quatro vezes por semana o professor que ensina na sala de aula.

Isso é útil para o aluno nos seus anos de formação?

Como professor, considero benéfico para os alunos receberem aulas de diferentes professores em Workshops ou em Masterclasses, porque isso facilita a compreensão de diferentes idiomas de ensino. Conheci alunos que durante muitos anos receberam aulas do mesmo professor e ao chegar a uma competição internacional era para eles impossível seguir outra aula porque o ritmo, a música ou a maneira de indicar os movimentos eram diferentes do que estavam acostumados.

Eu também defendo que existam professores especializados por área: O de contemporâneo estudou para ser professor de contemporâneo, conhece a linguagem e técnicas nas quais ele se especializou e permanece atualizado (pelo menos conforme o esperado), assim como os prodessores de ballet, jazz ou hip hop.

No entanto, quando se trata de professores diferentes para a mesma área, mas para o treino diário, isso pode atrasar o progresso do aluno.

Porquê?

Imagine que na escola do seu filho tem um professor de matemática na Segunda-feira, outro na terça-feira e outro na quarta-feira. Embora o currículo de ensino seja o mesmo, a forma de explicar e resolver um problema acaba por ser diferente de professor para professor e o aluno acaba por ficar confuso e não consegue avançar. O mesmo acontece quando tentamos ensinar os nossos filhos em casa e eles nos dizem: “assim não é como nos ensinam na escola”, e se insistirmos que” assim também se pode resolver”, a criança pode ficar tão confusa que acaba por não conseguir resolver de nenhuma das formas.

Marta Iris Fernández. Escuela Cubana de Ballet

O mesmo acontece com o ensino de ballet. A aprendizagem do ballet tem duas fases fundamentais: a mental e a corporal.

Primeiro, o aluno deve aprender e entender na sua mente a forma como o movimento é executado e só depois aplicá-lo ao seu corpo. Nesta segunda fase, vem a luta entre o que a mente diz ao corpo e o que o corpo é capaz de fazer, porque não é natural (no ballet poucos movimentos o são), porque não se tem força muscular ou elasticidade suficiente, etc. Apesar do aluno entender a forma como deve executar o movimento, requer muitas repetições e correções, até esse conhecimento ser assimilado pela memória muscular e para o corpo do aluno estar pronto a realizar os exercícios corretamente.

Imaginem agora que, no meio desse processo, à segunda-feira, o professor diz ao aluno que o movimento deve ser executado de uma maneira, por exemplo que deve apertar os músculos das costas; na terça-feira outro professor diz-lhe que deve contrair os abdominais, e na quarta-feira outro diz-lhe para baixar os ombros. Três indicações distintas, todas elas válidas, para executar o mesmo movimento. O que acontecerá então?

O corpo do aluno nunca estará pronto para executar o exercício de nenhuma das formas indicadas e os músculos não serão capazes de memorizá-lo.

Ramona de Saa. Escuela Cubana de Ballet

Não digo que, com isso, algum dos professores esteja errado ou que o resultado final desse movimento não seja o mesmo. É que cada professor, incluindo os formados sob o mesmo sistema, têm a sua forma de ensinar, de acordo com a sua experiência, para levar o aluno do ponto A ao ponto B e, quando falamos de alunos em plena formação, eles acabam por não conseguir discernir a qual das correções se ajustariam melhor.

Também influencia muito a parte emocional. Quando um professor dá aulas a um grupo em exclusivo, conhece os seus alunos, o que cada um deles precisa para progredir e até pode identificar se algum sente alguma dificuldade física que não queira reconhecer ou  até que está a ter mau dia, e ensina levando em consideração todos estes fatores. Em contrapartida, o aluno sabe que o seu professor o entende e conhece as suas necessidades, confiando, assim, no professor.

Se a relação aluno-professor é esporádica esse vínculo é mais difícil de acontecer, o aluno não tem essa dedicação da mesma forma que teria com um professor exclusivo, mesmo quando estiver numa sala de aula com muitos alunos.

Em matéria de ensino do ballet para alunos é um processo de formação, a experiência ensinou-me que quase nunca a quantidade e a variedade de professores traz avanços num curto espaço de tempo, como se pode conseguir com a dedicação e a confiança.

Artigo de Patricia Fiorucci

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